Para lá da linha do horizonte
 

Palavras e imagens, manipulação e questionamento de conceitos


Comece-se pelo fim. Mesmo que o fim não tenha fim. Comece-se pelo cair do pano, o correr da cortina, as personagens suspensas na acção, as letras a marcar o terminus. A bordo da barca de Caronte, crónica ímpar de um desfecho anunciado, não há porto de chegada ou partida. Ou antes, há os dois, em simultâneo. E não há caminho, há caminhar e seguir. Para lá da linha do horizonte.

Daniel Blaufuks dilata a espera na recorrência do que se vê. Sempre o mesmo, sempre distinto. A força de «Endless End» depende desse contínuo capaz de atravessar a conclusão, uma espécie de estado vegetativo vigilante ou pura contemplação, pese ainda assim o fugaz sobressalto dos momentos de reconhecimento, de desconhecimento, de interrogação ou displicência.

Mas o que se vê afinal? No ecrã do pequeno televisor sucedem-se genéricos de filmes. Apenas isso. Num repetido «loop». A preto e branco, há-os em todas as línguas, realizados em diferentes anos, em diversos países, por realizadores distintos. Mais do que uma experimentação inócua ou fácil da «caixa que mudou o mundo» como veículo cinematográfico, «Endless End» é, pela diminuta dimensão do suporte (que à memória não deixa de trazer a ideia de vinheta como pequena janela aberta sobre uma história), a expressão de um poderoso e encantatório momento de intimidade gerado entre espectador e imagem, recortando-se quase como buraco da fechadura ou sigilosa nesga, paradoxalmente com vista para o universo.

Porque mais do que uma homenagem ao cinema (um pouco à imagem da sequência de beijos censurados de Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore) todos os «The End», «Fim», «Fin» ou «Fine» que no ecrã surgem, remetem para a citação de Jorge Luís Borges, em Aleph, de um lugar que comporta todas as imagens do mundo a partir de todos os pontos de vista, e por outro lado consubstanciam um discurso que, de forma coerente, o artista tem vindo a construir na manipulação e questionação de conceitos como Vida e Morte, Início e Fim, Memória e Esquecimento, Encontro e História, Horizonte e Recomeço.

No projecto «Sobre o Infinito» a fotografia, meio habitualmente utilizado por Blaufuks, encontra-se praticamente ausente do percurso. Ou antes, surge como mera sugestão, situada entre a citação ou a evocação e alterada do seu uso comum. Através dela não se fixam paisagens, pessoas ou momentos mas registam-se palavras. São somente letras que pelo seu significado ou pelo traçado do seu corpo conduzem o espectador a fabricar, ele próprio, muitas imagens possíveis (ou simplesmente as suas imagens). A primeira encontra-se na superfície de uma caixa de luz que domina, pela estranheza da sua presença (um pequeno cubo suspenso no canto da sala) todo espaço expositivo, aludindo, mediante recurso à caligrafia hebraica, à palavra «Vida» e com ela ao percurso biográfico do artista. Uma outra isola «Horizonte» dactilografado a negro sobre fundo branco e remete, segundo Blaufuks, para a pintura e seus dispositivos de representação. É, de resto, recorrente, no seu trabalho, a utilização da palavra como remissão para o universo da literatura, do cinema ou da música a interferir e a complementar a imagem.

Aqui, a palavra funciona não apenas como um conceito provocador das outras linguagens mas igualmente como mote para a ideia de transposição de quaisquer limites. No fundo, um sentido que se amplia, também através do Objecto de Ver Fotografias, realizado em 2003 com a colaboração do arquitecto João Mendes Ribeiro, e a partir do qual é possível observar um outro tempo, um outro espaço.

 
Centro Cultural Emmerico Nunes, Sines, até 24 de Outubro
 
ANA RUIVO